Breve Contextualização sobre a Captação de Recursos no Brasil.
Rogério Snatus*
É através da captação de recursos que as organizações podem viabilizar financiamento para seus projetos. Ela é uma atividade presente principalmente em organizações como as ONG’s e produtoras culturais, mas não esta aí restrita.
A captação de recursos aqui tratada difere da realizada no mercado financeiro, por se tratar de uma modalidade de financiamento não reembolsável. Se bem que, as organizações podem utilizar as ferramentas do mercado financeiro para captar recursos, desde que estas tenham capacidade de endividamento.
Na área cultural a captação de recursos é tratada tradicionalmente como obtenção de patrocínio, principalmente quando a fonte de recursos são as empresas privadas, que apóiam os projetos em troca da exposição da sua imagem.
No terceiro setor a captação de recursos é feita tradicionalmente via cooperação técnica, através do financiamento a fundo perdido das agências de cooperação internacional. Este entrelace com a cooperação internacional se deu após a segunda guerra mundial, quando os Países Aliados se uniram para reconstrução e reestruturação do mundo, sendo a criação da ONU um grande marco deste momento.
No Brasil a captação de recursos via cooperação internacional remonta à ditadura militar, onde ONG’s internacionais apoiavam o processo de redemocratização. Desde aquele momento as agências de cooperação internacional foram o grande foco da captação de recursos para as organizações brasileiras, pois estas últimas precisavam manter sua autonomia em relação ao Estado.
Infelizmente nem todas as organizações sociais podiam captar recursos das agências, pois nem todas possuíam informações sobre como chegar a estes financiadores, e no caso de muitas, não possuíam um corpo técnico preparado para elaborar propostas de projetos coesos e muito menos geri-los, pois predominava no Brasil a visão caritativa do trabalho social. Felizmente, a partir da década de 80 houve uma evolução qualitativa do trabalho das organizações, tendo a Rio 92, como marco desta transformação, pois possibilitou a aproximação das organizações com as agências financiadoras, lançando as propostas de marco lógicos e conceituais e, principalmente, dando visibilidade às ONG’s.
Já no final da década de 90 houve uma coqueluche do terceiro setor, com a disseminação do conceito de responsabilidade social, o que proporcionou, inclusive, a migração de milhares de profissionais do setor empresarial para o recém batizado terceiro setor. Neste mesmo período foi criada a ABCR (Associação Brasileira dos Captadores de Recursos) com o objetivo de regular a atuação dos profissionais em captação de recursos, e distinguir a prática mercenária de alguns da atuação ética e profissional de outros.
Este fenômeno teve como conseqüência o surgimento de milhares de organizações sociais, o que proporcionou uma grande euforia para captação de recursos, gerando grande desconfiança entre o público e os financiadores, visto que muitas das novas “ONG’s” operam como empresas privadas e seus dirigentes utilizam-nas para fins particulares. Aqui cabe fazer um parêntese. Esta havendo uma grande banalização das ONG’s devido à generalização do termo junto à opinião pública. É preciso pontuar que nem toda organização social é uma ONG. E que para ser uma ONG é preciso possuir alguns critérios bem definidos, e ser filiada a Associação Brasileira das ONG’s – ABONG.
Como foi ilustrado inicialmente neste artigo, a captação de recursos é uma atividade que permeia vários setores e que as organizações podem otimizar os resultados ao integrar as ferramentas de captação de recursos utilizadas por estes setores aos seus trabalhos. Principalmente através do intercâmbio das contribuições que os operadores terceiro setor e os agentes da área cultural podem proporcionar uns para o outros.
A excelência em captação de recursos e obtida, como podemos perceber, através da ampliação do seu conceito e da quebra de alguns paradigmas que restringiam a atuação das organizações a áreas temática restritas. Com o surgimento da transversalização as possibilidades de financiamento aumentaram como também os problemas sociais passaram a ser encarados de uma forma mais sistêmica e interdependente.
É nesse caminho que os profissionais que atuam na captação de recursos têm que seguir, sejam eles dirigentes, técnicos, consultores, etc. A captação deve ser tratada de forma estratégica, por se tratar de uma atividade que mantêm de fato a organização funcionando, por viabilizar projetos que compõem a razão de ser das organizações, como deve estar refletido em sua missão.
Muito se têm ainda que discutir, trilhar e construir – haja vista as novas tecnologias nesta era da informação. A captação de recursos deve transcender conceitos engessantes para poder gerar resultados. Com ética e sensibilidade.
* Rogério Snatus é Consultor em Captação de Recursos e Cooperação Técnica para o Desenvolvimento. Contatos: rogersnatus@gmail.com.
